Lucro eterno de uma mente sem lembrança

CC andredoreto
– Olá seu Arnaldo, como é que vai? – fala a secretária com uma intimidade irritante e serelepe e saltitante de mais para uma segunda-feira  – O senhor pode acertar comigo que o Dr. Moraes já já vai atende-lo.

– Obrigado – responde o seu Arnaldo bravo pelo atraso de 45 minutos e ansioso por não ter nenhuma ideia do que está por vir. Se levantou da sua cadeira de plástico com a bunda toda marcada e caminhou nervosamente até o consultório. Fez o pagamento da consulta e entrou na sala. 

O Dr. Moraes sem nem olhar para ele, digitava e falava ao mesmo tempo – como vai seu Arnaldo. Sente-se. Em que posso ajudá-lo?

– Oi. Eh... bom dia. Eu queria apagar umas memórias.

– Claro, é para isso que estou aqui. E quais memórias o senhor gostaria de apagar hoje? – sem tirar o olho do monitor e nem a mão do teclado.

– Bom, tem uma ex-namorada que eu queria esquecer, sabe.

– É ex-namorada mesmo, seu Arnaldo? – continua digitando e clicando normalmente.

– Bom, não chega a ser assim uma namorada oficial.

– Seu Arnaldo, preciso saber exatamente qual a sua real relação com ela para não apagar a memória errada.

– Temos total confidencialidade aqui, certo doutor?

– Claro – disse o médico sem mudar uma ruga da sua feição.

– Bom, sendo assim. Ela é minha amante. Mas quero esquecer totalmente dela. Quero me tornar um homem limpo e decente de novo. Assim, se eu não lembrar dela, não vou estar mentindo para a minha mulher que nada aconteceu, certo? 

– Tecnicamente não – deixando a ambiguidade no ar – mais alguma coisa que você quer esquecer? Algum evento traumático de infância? Na escola, por exemplo?

– Agora, você falando assim me lembrou de uma vez que eu caí de uma árvore durante o recreio, me esborrachei todo e fui motivo de piada durante meses. Tem como pagar isso também?

– Tem sim, claro. É o mesmo preço. Mais alguma? Quem sabe algum vexame... em alguma festa...

– Nossa! Já tinha quase me esquecido dessa! Foi numa festa a fantasia no segundo ano da faculdade. Tomei todas e já fui para a festa vestido de Adão. Na hora parecia uma boa ideia, mas depois... 

– Certo, sem problemas. Mais alguma? Quem sabe alguma vez que ocorreu uma falha de performance em um momento de intimidade?

– Caramba doutor! O senhor é bom mesmo nisso ehm? Tudo bem, aconteceu uma vez.

– Uma vez só mesmo seu Arnaldo? Lembre-se de que eu preciso saber todos os detalhes para poder apagar a memória certa.

– Bom, está certo. Confidencialidade médica, certo? – risadinhas nervosas e sem graça – Foram quatro vezes. Três com a minha mulher e as outras duas com a minha amante.

– Ai são cinco, mas tudo bem. A gente apaga estas cinco e se tiver uma sexta vez que supostamente não aconteceu a gente apaga também. Fique tranquilo. Mais alguma coisa ou vamos ficar só com estas hoje?

– Não me lembro de mais nenhuma.

– Certo, então se não lembra não precisa apagar. Vamos ao procedimento. 

– Mas já? Aqui mesmo? Vai doer doutor?

O médico finalmente tira o olho do computador olha para o seu Arnaldo com um risinho sádico – Não doe nada. É só deitar ali na maca e relaxar. Fique tranquilo. Não leva mais do que 5 minutos.

Seu Arnaldo se deita nervoso, dr. Moraes conecta alguns fios da máquina na sua cabeça, aperta um monte de botões que fazem uns barulhos estranhos e dá uma última olhada no equipamento.

– Pronto seu Arnaldo?

– Mas já? Nossa, que agilidade! É fácil assim?

– Quando você sabe o que tem que apagar é bem simples.

– Ok então. Vamos lá.

E o médico sem falar mais nada aperta o botão principal da máquina, o seu Arnaldo se estrebucha todo na maca durante uns 15 segundos e depois cai todo largado e desacordado. O Dr. Moraes então volta para a sua mesa como se nada tivesse acontecido e continua digitando seja lá o que for que ele estava digitando. Uns 3 segundos depois entram dois enfermeiros grandes na sala e começam a carregar o que restou do seu Arnaldo sem falar nada.

Já na porta, um enfermeiro pergunta – mandamos ele para o endereço de sempre doutor.

– Sim, claro. Ah... e desta vez não esqueçam de colocar um cartão meu na carteira dele junto da foto da amante. Quem sabe assim ele volta mais rápido.

E na semana seguinte o seu Arnaldo está de volta ao consultório, mais pobre e sem a menor lembrança das últimas 39 consultas.