Favor não lamber

CC Tio Mobius
E então, uns 30 anos atras, em uma manhã ensolarado de Maio (vai dizer que não foi?), ficou cientificamente
comprovado que fumar faz mal a saúde. Dai em diante, as pessoas continuaram fumando os seus cigarros normalmente na mesma quantidade e frequência. E para ter certeza absoluta de que as pessoas continuariam fumando mesmo sabendo que faz mal, ficou determinado que seriam colocados avisos nas embalagens dos cigarros dizendo "Fumar vai te matar", o que é mais ou menos como o uso de capacetes no salto de paraquedas, você sabe que ele não vai ajudar nada mas põe mesmo assim. Depois perceberam que a mensagem estava cientificamente incorreta pois certamente alguns fumantes morreriam em acidentes de carros por não usar cinto de segurança antes do cigarro mata-los e resolveram mudar as mensagens para as atuais de "fumar é prejudicial a saúde".

Logo, falta ter um aviso nos carros de que o não uso do cinto de segurança também é prejudicial a saúde. E a comprovação científica disso já está por ai desde o século XVII quanto Newton (o Issac) fez as contas e comprovou por a+b que isso é um problema sério. Mesmo assim, o aviso "As leis da física advertem: andar no carro sem cinto pode matar" não está em nenhum carro.

Também não tem avisos nas lotéricas de que jogar na loteria vai te deixar mais pobre. Para ser matematicamente correto, um bilhete de loteria deveria ter um aviso "O Ministério da Fazenda adverte: o valor aproximado deste produto é -R$2,50" ou "Aviso: comprar este produto te dará praticamente a mesma chance de ganhar do que não compra-lo". Afinal, na média, é exatamente isso que acontece.

A questão é que avisos devemos ou não devemos ter nos produtos? Parece que estamos partindo do princípio de que as pessoas são por natureza desavisadas de tudo. A prova disso são os avisos nos elevadores que dizem "Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar". Se julgamos que é fundamental, a ponto disso ser uma lei, que temos que avisar uma pessoa que ela deve abrir os seus olhos, olhar para baixo, verificar se o chão a sua frete está realmente ali no lugar certo e disponível para ser pisado antes de dar o próximo passo, então creio que temos que rever nossos conceitos sobre os avisos de muitos outros produtos por ai.

Usando este princípio, sugiro alguns avisos urgentes:

- Livros: "Cuidado: este produto te deixará mais inteligente. Ou não."

- Celulares: "Não use se você quiser ter vida."

- Sapatos femininos: "Este produto é lindo mais vai doer pra burro sempre que for usado."

- Ventilador: "Favor não lamber."

- Ferro de passar: "Favor não lamber."

- Acostamento: "O uso desta parte da via para passar na frente dos outros carros te transforma automaticamente em um f.d.p."

- Botão de elevador: "apertar este botão várias vezes não fará que o elevador chegue mais rápido."

- Blogs: "Escrever contos em blogs te expõem ao ridículo publicamente."

- Pregador de roupa: "Não use como brinco."

Fico na dúvida se estes avisos vão resolver alguma coisa. No caso dos elevadores, parece que deu certo porque não conheço muitos casos de pessoas que caíram no poço do elevador. Já no caso do cigarro, parece que não deu muito certo.

Mas pelo menos ninguém vai poder dizer que não sabia.

Obs: a frase "Favor não lamber" poderia estar em todos os produtos do mundo com a exceção de pirulitos, picolés e alguns itens de sex shop.