Confissões de um esquisito irritado

CC jmrosenfeld

Se você é esquisito como eu, e eu sei que pelo menos eu sou, então você deve se incomodar com algumas esquisitices que aparentemente só incomodam você. Só que os esquisitos não falam sobre suas esquisitices com ninguém para não parecer mais esquisito do que já são. Devem existir outros esquisitos como você, mas eles também não falam sobre o assunto e então você fica sem saber se é a única pessoa que se irrita com esquisitices.

Bom, hoje é o dia que eu vou falar das esquisitices que me irritam.

Tomemos a gravata como o primeiro exemplo. Considerando a reação das pessoas quando eu limpo a boca com elas, parece que realmente elas não devem ser usadas como guardanapo. Se isso é verdade, elas não servem para absolutamente nada. E além de inúteis, elas são desconfortáveis, nada apropriadas para os países de clima tropical, têm um formato de gosto bastante duvidoso e invariavelmente estampas horrorosas. Nada mais do que um pedaço de pano pendurado no pescoço balançando para lá e para cá enquanto você anda. E do ponto de vista de sobrevivência também não me parece uma escolha muito inteligente amarrar deliberadamente um pedaço de pano ao redor do pescoço. Pode até ser que um dia a grava fez algum sentido, mas isso se perdeu na história pois não foi escrito em nenhum livro que sobreviveu à inquisição. Vai ver foi uma bruxa medieval que inventou a gravata e queimaram o livro onde ela explicava tudo na mesma fogueira que ela. Isso explicaria muita coisa...

Mas mesmo sem ter a menor ideia do porquê, durante centenas de anos, inúmeros membros da espécie humana do gênero masculino acordam de manhã e colocam uma destas coisas ao redor do pescoço antes de sair de casa. Talvez exista uma pitada de esperança de que durante o dia a explicação vai aparecer. Quem sabe um tigre dentes de sabre vai sair de trás de uma arvore, pular no seu pescoço e antes de te morder vai se enrolar todo na gravata e morrer asfixiado, ou então uma bruxa medieval vai te lançar um feitiço e a feiura da forma e estampa vai te proteger, vai saber.

A gravata é um caso secular dos comportamentos esquisitos e irritantes da humanidade. Mas ao invés de aprender com isso, queimar todas as gravas em uma fogueira (semelhante a da bruxa que a inventou) e prometer nunca mais repetir as mesmas bobagens, continuamos criando estas esquisitices também atualmente.

Um exemplo mais moderno: ao pedir para um frentista em um posto de gasolina para encher o tanque, ele tenta fazer com que o valor a pagar seja um número redondo. Por quê? Bom, até uns anos atrás isso tinha algum sentido, pois nem ele nem você queiram ficar contando as moedinhas do troco. Mas agora, com cartões de crédito e débito não faz a menor diferença se o valor termina com “00” ou qualquer outra dupla de algarismos numéricos. Mas mesmo assim, eles ficam tentando acertar aqueles dois zeros no final. Eu já tentei explicar a situação para um deles mas não recomendo para ninguém tentar.

Outro clássico moderno das coisas que ficam por ai sem precisar é o mouse pad. Na época dos mouses de bolinha eles até que tiveram a sua função, mas hoje com 100% da produção de mouses mundial se baseando na tecnologia ótica eles são absolutamente inúteis. Entretanto, eu aposto que você tem um destes na sua mesa agora mesmo. Se bobear, o próximo tablet que você comprar vai vir com um de brinde.

Quer mais um? Screen Saver. Eles tinham a importante função de impedir que a imagem ficasse marcada no seu monitor de fósforos ou até mesmo naquele mais moderno de plasma. Muito útil. Mas agora o seu monitor usa tecnologia de cristal líquido (os LCD) ou de LED e o screen saver é totalmente desnecessário. Mas eu aposto que aquelas torradeiras voadoras estão por ai ainda, voando pelos monitores de LCD e pelas TVs de LED como se não houvesse amanhã.

Vamos torcer para que daqui uns 500 anos o pessoal resolva queimar todos os mouse pads em uma grande fogueira e não os livros que explicam porque eles existem.