A morte de uma impressora


CC andredoreto
- Vai, por favor, eu te imploro! Imprime pelo amor de Deus.

- Não imprimo e acabou. Não tem conversa.

- Mas eu preciso muito desta impressão, é um documento muito importante que precisa ser assinado e enviado com máxima urgência. Se não tivesse que assinar eu juro que mandava por e-mail mesmo, mas tem. Me ajuda, vai?

- Não. Se vira.

- Mas que intransigência da sua parte! Você não tem vergonha não? Fazer uma coisa destas com um colega de trabalho? Que absurdo.

- Não imprimo e ponto final. Vai procurar outra coisa para fazer e pare de me incomodar.

- Vamos lá, seja camarada. Sabe com é, uma mão lava a outra nessa vida. Será que não tem nada que eu posso fazer por você em troca deste enorme favor?

- Você está querendo me subornar? 

- Que é isso? Suborno é uma palavra muito forte. Digamos que é apenas ajuda entre amigo. Você quebra esse galho para mim agora que eu te ajudo em alguma outra coisa outro dia. Por exemplo, posso te comprar um presente bacana, quem sabe uns toners novinhos, inclusive o colorido. Que tal?

- Não. Já foi a época em que estive a venda. Não imprimo e acabou.

- Pois bem então, se não vai por bem, vai por mal. Ou você imprime essa porcaria de documento agora mesmo ou então ou conto para todo mundo que você tem o hábito nojento de fica por ai comendo papel.   

- Você não faria isso?

- Claro que sim. Imprime se não eu coloco no Facebook.

- Se você fizer isso é guerra declarada. Você entrará na lista dos meus inimigos mortais para sempre.

- Quero só ver você conseguir imprimir essa lista antes do meu documento, ele já está na fila. Ahahahaha....

- Isso, vai tirando sarro mesmo. Tente assinar esse seu documento no monitor então.

Pensa por uns segundo se isso é uma alternativa – Por favor, vai. São só três míseras folhinhas. Olha, se você quiser eu até imprimo frente e verso para gastar menos papel.

- Não imprimo e pronto. Vai infernizar outro.

- Inferno é você! Eu vou te quebrar no meio sua &%!$!:!1.  

- Vem! Vem que eu te rasgo no meio!

- Imprime isso agora ou vou enfiar esse cabo no seu @%!Q!%2, sua vadia!

- Vadia é a sua mãe, seu estressadinho. Vai se ferrar e me deixa em paz.

- Olha aqui, imprime essa M##%&=/3 agora se não eu te quebro! – Pega  uma tesoura da mesa e se posiciona decidido usar força bruta se necessário.

- Isso é uma ameaça?

- Além de tudo você é idiota? Corto todos estes teus cabos, arranco essa sua bandeja e te quebro no meio.

- Você não faria isso, você depende de mim...

Já com o dedo no botão para desligar – Que se dane. Vou te desligar e te quebrar toda.  

- NÃO!

- IMPRIME – botão já meio apertado.

- Não! Por favor, não! Eu demoro muito para resetar! Tudo menos isso!

- IMPRIME!

- Espera ai... – começa a chorar.

- Espero nada. Imprime ou então...

Chorando profundamente – Desculpe, é que eu estou muito estressada ultimamente. Sabe, essa vida de impressora não é fácil, é muita pressão. Tem que ser multifunção, tem que estar sempre atualizada, tem que ser rápida, não pode gastar muita tinta, tem que estar online 24hs por dia... É muito estressante. É impressão pela rede, por pendrive, por bluetooth, rede sem fio... E se a gente faz o nosso trabalho bem feito, ninguém fala nada, nem um obrigado, nem mesmo um simples um valeu.

- Poxa vida, não sabia que ser uma impressora era tão complicado.

- Nem te conto. Muito difícil. 

- Nossa, desculpe que eu fiquei bravo com você. É que eu também estou muito estressado, sabe. O chefe está uma fera hoje e querendo tudo para ontem.

- Tudo bem, eu entendo.

- Então imprime esse documento para mim vai.

- Não.

O enterro dela foi feito com o caixão fechado. Uma máquina de escrever foi colocada em seu lugar e todos viveram felizes para sempre. Ou pelo menos até o dia que a fita da máquina ficou sem tinta.

1 Impressora de meia tigela
2 USB
3 Folha