A internet caiu

CC andredoreto
Foi assim que aconteceu. Uns idiotas loucos que não tinham nada melhor para fazer acharam outros idiotas loucos, se organizaram e resolveram cortar uns cabos e desligar a internet, só para ver o que aconteceria (sim, isso é possível). O que eles não sabiam, coisa que normalmente acontece com idiotas, é que estes cabos eram essenciais para praticamente todos os meios de comunicação do mundo.

No começo, todo mundo pensou que fosse só uma coisa temporária e só deu aquela reclamada básica da empresa de telecom. Mas, apenas  umas horas depois as áreas de help desk mundo a fora já estavam sobrecarregadas com chamados de gente brava que não conseguia mandar aquele e-mail urgente para um cliente importante. No fundo a gente sabe que eles estavam bravos porque queriam ver o vídeo novo do Mundo Canibal ou então aquele filme do gatinho no YouTube que tem 100 horas consecutivas com uma música irritante. Enquanto isso, as áreas de infra estrutura de TI do mundo todo estavam tentando entender o que aconteceu, mas nenhum fornecedor respondia os e-mails, não tinha ninguém online no MSN e os fóruns de discussão estavam todos fora do ar. Eles até tentaram achar alguém de TI que soubesse usar um telefone, e parece que acharam um tiozão das antigas que sabia, mas ele só tinham o e-mail do fornecedor e parece que só com o e-mail não dá para ligar. O pânico começou a tomar conta das pessoas que precisavam desesperadoramente acessar o Twitter e o Facebook para postar mensagens desesperadas sobre o pânico que estava acontecendo. Mas continuava tudo fora do ar.

Algumas horas mais tarde e a humanidade ainda era considerada civilizada, com exceção do pessoal do help desk. Algumas pessoas aproveitaram e foram para os bares beber, outras foram para casa dormir mais cedo e umas duas ficaram para tentar resolver o problema. Teve uma torcida velada para ficar assim uns dias e não termos que trabalhar. Nada mais de e-mails de chefe chegando, nada de ter que comentar os posts do Facebook para não ficar fora dos assuntos, nada de postar textos sem nexo nos blogs, ou seja, liberdade para fazer o que quiséssemos. Mas o tempo foi passando e nada da internet voltar a funcionar. Até que os joguinhos que já tínhamos instalados nos celulares nos mantiveram entretidos durante um tempo. Mas as pessoas só aguentam uma certa dose (razoavelmente grande por sinal) de jogar passarinhos contra porcos, e logo a sociedade começou a desabar.

Alguns jornais imprimiram suas capas com o layout de página de internet e isso aliviou um pouco as coisas. Mas assim que as pessoas perceberam que não adiantava clicar no “veja mais”, a revolta começou. Ocorreram diversas depredações na vã busca de equipamentos que ainda tivesse algum acesso à internet. A síndrome de abstinência digital assolou a população e o resultado foi gente tremendo pelas ruas, sem rumo e desesperadas, atacando uns aos outros para roubar telefones celulares e ver se conseguiam uma última dose de acesso, nem que fosse ao Orkut. Depois de algum tempo, as pessoas apertavam qualquer botão de qualquer equipamento para sentirem um pouco da excitação do antigo vício, mas sem muito sucesso. As coisas pioraram bastante quando os botões de eject dos DVDs pararam de funcionar completamente de tanto uso. Mas neste ponto as coisas já não estavam nada bem mesmo.

Nas grandes cidades já não tinha mais ninguém com condições mentais mínimas para se vestir sozinho, até porque não tinha como saber nem a previsão do tempo nem o que estava na moda. Milhões de mulheres morreram de frio, de fome (elas não conseguiram decidir o que vestir para sair para almoçar) e de desgosto por não estarem vestindo a cor certa. E depois milhões e milhões de homens se suicidaram ou com saudades das mulheres ou porque a cerveja tinha acabado, ninguém sabe ao certo qual foi. Hoje não resta mais do que uma fração da população que existiu na era da internet e temo que muitos não vão sobreviver ao próximo inverno.

Lhes escrevo de uma fazenda remota que tem internet por satélite de onde eu ainda consigo acessar algumas poucas coisas que ainda estão no ar, como este blog. Faço este relato antes que alguma coisa me aconteça para que, algum dia, os historiadores do futuro tenham acesso a versão oficial do que se passou nos últimos dias da civilização.

Atenciosamente,
O último humano civilizado.

Obs: Cá entre nós, a verdade mesmo é que sem a pornografia irrestrita e ilimitada, a vida deixou de fazer sentido.