Homo excors

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Nós demos o nome da nossa própria espécie de homo sapiens, o que em latim quer dizer homem sábio. Mais que isso, a forma mais moderna da nossa espécie é chamada de homo sapiens sapiens, em outras palavras, o homem que sabe que é sábio. Uma arrogância tamanha que seria mais adequado se nos chamássemos de homo superbus, pois nossa arrogância parece ser bem maior que nossa sabedoria.

O fato de nos autodesignarmos como sábios é o suficiente para determinarmos categoricamente que não somos sábios coisa nenhuma. Os poucos homo sapiens de verdade que existiram nos ensinaram que quanto mais sabemos mais dúvidas temos. “Duvido, logo penso, logo existo” foi o que Descartes disse, mas somos tão “sábios” que tiramos a parte mais importante da frase. É uma questão um tanto quanto recursiva, mas se você é sábio você sabe que não é sábio. Logo, quem se acha sábio, não é sábio. Ou seja, somos um bando de idiotas que se acha esperto. Menos nos sábios de verdade que se acham uns idiotas. Conclusão: ou você é um idiota ou se acha um idiota.

Um argumento vastamente usado para nos chamarmos de sapiens é a nossa capacidade de criar e usar ferramentas. A habilidade é inegável. Mas, em hipótese alguma, isso nos torna automaticamente sábios. Só quer dizer que sabemos construir coisas para construir outras coisas. É o que fazemos com as ferramentas que define a sabedoria, não o fato de conseguirmos construí-las. O que acontece quando se dá um martelo aos macacos? Provavelmente vários outros macacos com buracos no crânio e ossos quebrados. Algo análogo acontece com o dito homo sapiens.

Mas se nem mesmo a discussão filosófica te convenceu de que o nome da nossa espécie está errado, imagine as seguintes situações cotidianas: O sujeito está com pressa e o elevador está demorando. O que ele faz? Aperta o botão do elevador umas quarenta vezes seguidas em dois segundos para ver se ele vem mais rápido. O fulano está conversando ao telefone e fica bravo com o que lhe foi dito. Portanto ele tenta golpear o seu telefone contra a mesa para ver se isso resolve a situação. O camarada está assistindo TV quando a imagem fica ruim. Ele então se levanta e vai dar uns tapas na televisão para ver se ela volta a funcionar, mesmo se a TV for a cabo e com tecnologia 100% digital. O telefone com disco não existe a pelo menos 20 anos e o dito cujo insiste em colocar na pizzaria dele o telefone do “disk pizza”. E com “k” para dar um ar de gente moderna. Estes são comportamentos típicos do homo sapiens. Que atire a primeira pedra quem nunca apertou o botão do controle remoto mais forte quando a pilha está acabando.

Se você ainda não está convencido, eis meu argumento definitivo. Imagine que, um dia, civilizações extraterrestres extremamente avançadas consigam ter acesso ao conteúdo da nossa internet. Uma junta de notáveis de varias raças começa a analisar minuciosamente o conteúdo para entender a nossa estrutura social e nossa capacidade intelectual para nos categorizar na enciclopédia galáctica. Não tenho muitas dúvidas de que ao analisar o conteúdo do Orkut e Facebook eles, no melhor dos casos, nos designariam como homo inutilis. Mas isso seria revisto no dia em que os alienígenas resolvessem dar uma olhada nos vídeos mais assistidos do YouTube e se depararam com vídeo “para a nossa alegria”. Deste dia em diante, nosso verbete será atualizado e seremos chamados de homo excors pelas outras raças da galáxia.

Se ao menos nos auto-designarmos assim desde já, vamos parecer um pouco mais sábios quando eles lerem o verbete da Wikipédia. Eles vão dizer “bom... pelo menos eles sabiam”.