Horóscopo na era espacial

CC Acid Zebra
O fato de ainda gastarmos papel e tinta para imprimir previsões astrológicas diariamente em jornais e revistas é a prova definitiva de que a humanidade não tem salvação. É a constatação de que não temos a menor chance como civilização. Sei que gastamos também alguns bits aqui e ali na internet com estas bobagens, mas ai tudo bem porque na internet não tem nada que presta mesmo, vide os blogs de contos que tem por ai.

No passado, observar o céu e conhecer as constelações era extremamente importante. A agricultura dependia disso pois era assim que se sabia que era hora de plantar, de colher, etc. Portanto, era razoável que os antigos associassem certas constelações no céu em certas épocas do ano com coisas que aconteciam com eles. Por exemplo, um egípcio poderia associar a época da colheita com a constelação de escorpião que aparecia no início da noite. Logo escorpião seria associado a uma época de fartura, felicidade, bonança, etc. As pessoas ficavam felizes ao ver a constelação de escorpião. Então, o pobre egípcio, com os conhecimentos que tinha, poderia dizer que pessoas nascidas desta época tinham algumas características por que nasceram nesta época. Compreensível, para um cara que não sabia que comer com a mão suja faz mal e achava que caixão só era bonito de verdade se tivesse o formato de uma pirâmide bem grande.

Mas depois da revolução científica, nenhum ser humano, mesmo que fracamente instruído, pode achar que a posição dos astros pode nos influenciar. OK, a posição da Terra no espaço nos influencia. O Sol, certamente é importante. E a Lua também tem algum efeito prático por conta das marés que ela causa. Mas a partir dai está tudo longe de mais para causar qualquer problema ou solução. Nem que o plante Urano (que está a 3 bilhões de quilômetros da Terra) quisesse ele conseguiria influenciar as nossas vidas. Tudo o que vem de Urano para cá é a luz refletida do Sol e isso nem é grande coisa, o planeta nem é visível a olho nu (ele tem uma magnitude aparente de no máximo 6). Alguém, tentando dar um ar de ciência a astrologia, ainda pode dizer que existe a influência gravitacional do planeta. E é verdade, existe mesmo. Só que o este efeito gravitacional, devido a distância, tem uma influência com um zero, uma virgula e uns 15 zeros antes do primeiro número significativo. Vamos colocar assim, se Urano simplesmente desaparecesse amanhã, ninguém iria notar absolutamente nada daqui.

Da mesma forma, as estrelas, mesmo a mais próxima que está a 4 anos-luz daqui, têm uma influência gravitacional tão ridiculamente pequena que gastaríamos uma caneta Bic inteira para escrever a quantidade de zero que esse número tem. E sabemos que as canetas Bic são infinitas porque ninguém nunca acabou uma. Como é que podemos culpar a coitada da constelação de Leão pelo fato de alguém ser teimoso ou então de não estar propenso para o amor hoje? Só para avisar a estrela mais próxima da constelação de Leão de que ela é a culpada levaria 36 anos para a mensagem ir, uns 10 anos para eles pararem de rir da gente e outros 36 para recebermos a resposta, que certamente dirá que ele não tem nada a ver com isso. Ou seja, 82 anos jogados fora e um embaraço interplanetário sem precedente.

Mas mesmo sabendo tudo isso, tem gente que insiste que astrologia é coisa séria e que funciona. Para quem vende um mapa astral, tenho certeza de que o dinheiro funciona de verdade. Mas dizer que: "Júpiter e Sol, apesar de se encontrarem em aspecto tenso entre si, mantém a promessa de trazer benefícios à vida doméstica e também na carreira" é algum tipo de previsão válida, agride qualquer pessoa com inteligência igual ou maior a de um Gastrópode.

Acho que todo mundo tem o direito de acreditar no que quiser. Eu, por exemplo, acredito que as impressoras são todas possuídas pelo demônio. Mas não gasto tinta, papel, tempo e dinheiro dos outros dizendo o que as impressoras estão tramando contra a gente todos os dias. O problema (pelo menos para mim) é que o que eu acho ou deixo de achar não vale nada e as pessoas vão continuar acreditando e gastando tempo com estas bobagens.

Eu só vejo uma única coisa que possa fazer esta bobagem toda acabar. Em algum momento do futuro (décadas, séculos, milênios, não importa), um ser humano irá nascer na superfície de Marte. Neste momento, alguém vai tentar fazer o horóscopo deste indivíduo e verá que isso é impossível. As constelações no céu são as mesmas lá em Marte, mas o alinhamento das constelações com o Sol não. Vão ter que inventar uns signos novos. Além disso, Marte têm duas luas, Fobos e Deimos, que são bem menores que a nossa. Como fica isso no horóscopo? Será que Júpiter tem uma influencia maior por estar mais perto? O Sol tem uma influência menor? E o fato do dia lá ter 24hs e 30 minutos? E o ano dura 687 dias terrestres? Quando o primeiro Marciano nascer a astrologia vai acabar. Não porque eles não são capazes de "resolver" estas questões, mas sim porque vai dar tanto trabalho explicar essas coisas que eles vão finalmente desistir deste assunto.

A preguiça vai ganhar da ignorância.