A piada perfeita

JoeAlterio (CC)
A platéia espera ansiosamente.

Os cientistas anunciaram que finalmente conseguiram desenvolver um robô que consegue contar a piada perfeita. Eles consolidaram em um único banco de dados as bilhões e bilhões de piadas disponíveis na internet, avaliaram a capacidade de cada uma de fazer rir, as categorizaram, aplicaram filtros para remover as piadas sem graça e correlacionaram meticulosamente os efeitos que cada uma das piadas têm sobre diferentes grupos culturais, diferentes faixas etárias, sexos e origem genética.

Também criaram um dispositivo com vários sensores que consegue captar a reação da plateia perfeitamente. Ele consegue verificar as reações de expressão facial, a temperatura corporal e os batimentos cardíacos de cada pessoa, o som ambiente,  um sensor de odor para verificar o nível de feromónios no ar, umidade, temperatura, pressão, campos eletromagnéticos e muitos outros.

Com estas informações em mãos, os cientistas desenvolveram um algoritmo que consegue, em milissegundos, buscar no banco de dados o conjunto de piadas apropriadas para aquele público, gerar todas as combinações possíveis entre elas e então mescla-las de forma otimizada e criar é a piada perfeita para a platéia. Usaram também técnicas de inteligência artificial para que o algoritmo fosse aprendendo e se adaptando melhor aos resultados e fizeram bilhões de interações de teste para deixa-lo no seu ponto ótimo.

Criaram então um robô que consegue replicar a forma de falar e se mover dos melhores comediantes de todos os tempos. Jerry Seinfeld, Rodney Dangerfield, Robin Williams, Steve Martin, Cris Rock, Bill Cosby, Eddie Murphy, tudo sobre eles foi meticulosamente estudado. Centenas de milhares de horas de vídeo foram analisados. Como cada um deles se movia, o tom de voz, o comportamento no palco, o ajuste no tempo da fala, adaptação da entonação, o ritmo, tudo. E o robô conseguia determinar qual a forma ótima para cada plateia.

Estudaram também qual seria a aparência mais engraçada possível que eles poderiam dar para o robô e depois de muitos estudos, decidiram que ele deveria se parecer com um palhaço de circo. Uma mistura de Bozo, Krusty e Patati-Patata.

Em fim, a piada perfeita.

A cada minuto que passa, a expectativa cresce.

A piada perfeita nunca foi ouvida e alguns psicólogos tentam prever qual será o efeito nas pessoas. Alguns até dizem que as pessoas podem, literalmente, morrer de rir. Os paramédicos estão de prontidão para qualquer emergência com um tampão no ouvido para não ouvirem a piada e também morrerem.
Finalmente, um grupo de cientistas, todos com cara de nerd, vestindo jalecos brancos, com várias canetas no bolso e com gadget totalmente geeks de comunicação nos ouvidos e entra no palco carregando um robô visivelmente pesado, cheio de fios saindo dele, mas, da cintura para cima, com uma aparência de palhaço perfeito. Ele tinha um sorriso enorme no rosto que fazia fronteira com o assustador.

A platéia nem se mexe, a atenção é total, não se houve nada. Apenas os sons dos cientistas ajustando o robô ecoam no teatro. Os cientistas já suados colocam o robô sobre um banco bem no meio do palco e saem andando muito rápido, quase correndo. Dizem que cientistas que usam jalecos brancos têm fobia de palco.

 A tensão aumenta. Todos esperando o robô dizer alguma coisa.

Ele se move!

Ninguém respira.

O robô mantem o sorriso do rosto e gira o pescoço olhando para todos com uma expressão agora definitivamente assustadora misturando o exorcista e o Chuck. Ele vira a cabeça de um lado para o outro vagarosamente, por uns 158 graus, para fazer uma avaliação inicial da sua platéia. Faz a varredura duas vezes e depois para de se mover abruptamente.

Ninguém respira.

Um paramédico cai desmaiado sem ar. Esqueceu de respirar. Os outros paramédicos nem notam. A tensão é total.

O robô abre a boca e faz um som bem alto parecido com o de golfinho para medir a acústica do local. Algumas pessoas se assustam colocam a mão no ouvido. Uma criança que estava no local começa a chorar.  

Tudo medido, tudo pronto. Agora é a hora. A piada perfeita vai ser dita. O robô começa a falar e se mover de repente com a maior desenvoltura já exibida por qualquer ser (vivo ou não) neste planeta. Todo mundo leva um susto enorme.

- Por que um ser humano chamado Joãozinho, embriagado, nascido em Portugal, com cabelos loiros, portando um papagaio em uma mão e de mãos dadas com a sua sogra na outra resolveu atravessar a rua?

O silêncio só é rompido pelo choro da criança.

- Para ver se...

E para de funcionar completamente.

Alguns dizem que um dos cientistas puxou o cabo de energia e saiu correndo com vergonha. Outros dizem que era só bug no algoritmo e que o novo release do software vai ter um bug fix que conserta isso. Outros ainda, dizem que o robô respeitava as três leis da robótica e que ele não poderia terminar a piada porque iria matar alguns humanos de tanto rir. Há ainda a teoria de que o robô esqueceu o fim da piada. Particularmente, essa última me parece a mais razoável.

 Nunca saberemos.