Você sabe fazer café?

renoir_girl (CC)
Você tem duas opções. Ir à papelaria, comprar papel e envelope, escrever uma carta de próprio punho, ir até o correio, comprar o selo, lambê-lo para colá-lo no envelope, colocar a carta na caixa e esperar umas duas semanas pela resposta. Ou então por a mão no bolso, pega o celular, escrever e enviar um email e depois de dois minutos ter a resposta.

Nenhuma pessoa que tenha inteligência o suficiente amarrar o cadarço do próprio sapato escolheria a primeira opção. Simplesmente não faz sentido. Faz tão pouco sentido que todo mundo que nasceu depois de 1995, nem sabe dizer o que é um selo de carta, muito menos entende porque tem que lamber ele. A segunda opção é tão boa que o método antigo fica ridículo. E convenhamos, lamber selo era uma coisa ridícula. Imagine se toda vez que você quisesse mandar um e-mail tivesse que lamber o celular ou a tela do computador? Ridículo, mas era assim que era.

A tecnologia é uma coisa tão viciante que já existem até clínica de reabilitação para este público. Alias, investir nestas clínicas deveria ser o melhor negócio do mundo, pois todo mundo que eu conheço é um potencial cliente. Ou você ainda conhece alguém que sabe fazer conta de cabeça? Seu pai deve saber a tabuada de cabeça porque ele aprendeu na escola e precisou usá-la boa parte da vida. Nossa geração até aprendeu a tabuada, mas como não precisamos usar nenhuma vez depois que passamos no vestibular, ela virou só uma lembrança remota da infância. Quase como cheiro de brigadeiro.

E assim, aos poucos, com o passar das décadas e das gerações, a tecnologia vai se tornando universal e difusa a ponto de não sabermos mais as coisas. Por exemplo, o meu avô sabia fazer café. Ele sabia como plantar, cultivar e colher o café, sabia secar, torrar e moer os grãos e também passar e servi-lo. Eu sei colocar o refil na máquina e apertar o botão. O café que sai da máquina é ótimo, mas não posso sair por ai dizendo que eu sei, de fato, fazer café. Não sei. E tenho certeza de que meus netos vão saber ainda menos coisas do que eu. Eu não faço idéia de como se faz uma Coca-Cola, mas ainda sei pegar uma na geladeira e abrir a latinha. Só que se inventarem um robô vai até a geladeira e abre a latinha para você, logo ninguém mais vai mais saber abri-la. O dia que o robô quebrar, eles vão consultar a Wikipédia para saber de onde vêem as latinhas e como é que se abre uma. Mas como não vamos escrever um artigo sobre isso porque do nosso ponto de vista isso parece uma idiotice, esta informação não vai estar lá.

- Mãe, o robô quebrou e eu estou com sede. Como faz?

- Nossa! Eu não me lembro! Acho que tinha um lugar aqui em casa que o robô ia buscar a bebida.

- Onde é que fica isso?

- Sei lá.

- Mas é agora?

A mãe tira um celular do bolso e pergunta para ele:

- Onde estão os refrigerantes?

Em uma voz aveludada, calma e perfeita o celular responde.

- Refrigerante é uma família de bebidas não-alcoólicas e não fermentadas, fabricadas industrialmente, à base de água mineral e açúcar, podendo conter edulcorante, extratos ou aroma sintetizado de frutas ou outros....

- Não, não. Quero saber onde eu consigo achar um.

- Refrigerantes são encontrados em bares, restaurantes, supermercados...

- Não, não. Como se pega uma coca-cola quando o robô quebra?

- O ser humano usa seus membros posteriores com o polegar opositor para pegar objetos e ferramentas...

- Não! Aqui em casa. Tem algum lugar aqui em casa onde o robô ia pegar refrigerante para a gente. Só que o robô quebrou a gente não sabe onde é. Você sabe onde está?

- Estamos localizados na latidude 42,14 sul e longitude...

- NÃO!!! ONDE ESTA A COCA-COLA?

- A sede da Coca-Cola é Atlanta nos Estados Unidos.

- Celular idiota!

Vamos torce para que eles pelo menos saibam concertar robôs. Se não vão morrer todos de sede.