Fantasmas Digitais


A conta é simples. Somos cerca de 7 bilhões de seres humanos neste planeta hoje. Morrem cerca de 50 milhões de pessoas por ano, ou seja, 0,75% da população. Se partirmos do pressuposto de que são 750 milhões de pessoas cadastradas no Facebook e que elas têm uma taxa de mortalidade igual a da população mundial, então cerca de 15 milhões de cadastrados já não está mais entre nós nos últimos 3 anos. Mesmo se considerarmos totalmente a taxa de crescimento do número de usuários, daqui a 10 anos, serão uns 50 milhões cadastros fantasmas no Facebook. E se tiramos os vivos que não valem nada da conta (se não valem nada, é só somar zeros), teremos praticamente mais gente morta do que viva na rede social muito em breve.

Além disso, até que apareçam evidencias concretas de que fantasmas estão mandando mensagens para o mundo dos vivos solicitando o descadastramento, esse número vai crescer para sempre. Eles serão um segmento dos usuários tão representativos que certamente o Facebook e as outras redes sociais vão criar funcionalidades para atender as necessidades especiais dos fantasmas. Afinal, um público alvo deste tamanho e sempre crescente tem que ser muito bem atendido.

Acho que uma das primeiras funcionalidades que vão inventar para este segmento será deixar as pessoas criarem, em vida, mensagens pré-determinadas para serem postadas de vez em quando depois que elas morrerem. Seria como se ainda estivéssemos ali, só que mais honestos, diretos e sinceros.

Eu consigo pensar em uma série de mensagens interessantes para aparecer na minha time line:

- Agora eu já posso dizer: "I see dead people".
- Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece.
- Eu não acredito em fantasmas. Eles são muito mentirosos. 

Ou então, certas pessoas que só vêem os amigos pelas redes sociais poderiam continuar postando mensagens normais como se estivessem vivas para dizer que ainda estão bem na foto. Para manter as aparências, sabe?

- Cara, você ficou sabendo do Marcão?
- O que aconteceu?
- Pô, ele morreu!
- Ah... não acredito... vi ele ontem mesmo no Facebook.
- Mas ele morreu fazem 3 meses!
- Impossível. Ele estava ótimo ontem à noite. To te dizendo, vi uns posts engraçadíssimos dele não faz muito tempo.
- Sério!
- Sério. Olha aqui oh! (e mostra o celular com os posts).
- Não acredito! Jurava que tinha ido ao enterro dele.
- Deve ter sido de outra pessoa.
- É...

Silêncio constrangedor.

- Será que ele ainda está saindo com a Ritinha?

Silêncio mais constrangedor ainda.

- Pô cara. Namorada de amigo não! Sujeira.

Ou então, seriam mensagens de coisas que você sempre quis dizer, mas não podia por ser uma heresia social.

- Eu não gosto dos Beatles. Nunca gostei. Odeio todos eles.
- Torcia pela Argentina na Copa do Mundo.
- Sempre gostei de balé clássico e canto lírico.
- Sou Flamengo mas sempre simpatizei com o time do Vasco.
- Assumo diante de todos que sou um colecionador de selos.
- Eu prefiro o Google Buzz do que o Twitter.

Os parentes mais próximos se sentiriam envergonhados, mas a pessoa se sentiria muito melhor de ter colocado aquilo para fora, tirando aquele peso sufocante da sua alma. Uma espécie de #prontofalei liberatório relaxante póstumo.

Mas, para atender a demanda do público sempre crescente, os sistemas certamente vão ficar cada vez mais inteligentes. Vão aparecer uns aplicativos que irão colher uma série de informações sobre você como as respostas que você deu enquanto vivo, o tipo de mensagem que você postou, a relação com os seus amigos, analisará as suas fotos, verá o perfil do texto nos seus e-mails, fará um scan dos locais que você freqüentava, olhará os sites que você acessava, as buscas que você fazia e com isso tudo definiria um padrão para produzir novas mensagens e respostas. Se me lembro bem, dizem por ai que nos somos as nossas memórias (se você não se lembra, você não é ninguém). Pois então, some os dados do Facebook, Twitter, Google, Flickr, Dropbox, Four Square dentre outros serviços do tipo e voilá, a memória da sua vida inteira disponível para um software ler e se tornar o seu "eu" digital. Quase um "você" 2.0.

Ai sim, você pode morrer tranqüilo que o seu “eu” digital vai estar lá para conversar com as pessoas, postar uma coisa aqui e ali deve em quando, clicar em um “Curti” sem compromisso, dar um RT naquele link engraçado, mandar um e-mail com aquele PowerPoint com uma mensagem bonitinha, enviar um “alô” para os amigos, em fim, fazer o que você costuma fazer durante o expediente de trabalho normalmente. A sua existência estará eternizada. 

Como nos somos a primeira geração a ter as nossas memórias digitalizadas não podemos nos beneficiar desta tecnologia para falar com as pessoas que já se foram, infelizmente. Mas vamos ser os primeiros que poderemos bisbilhotar a vida dos seus tatatataraneto. Reclamar que ele não fala nunca com você, que não ele não dá atenção para os parentes mais velhos, dizer que as coisas de hoje em dia não são como na nossa época, manda uns posts para ele não esquecer o casaco antes de sair de casa, dizer para ele (publicamente) que não pode ficar saindo com duas namoradas ao mesmo tempo, essas coisas que os avôs fazem.

Logo será então criado um novo mercado de aplicativos: o Ghost Busters. Uma espécie de filtro Anti-Spam para mensagens indesejadas de fantasmas digitais inoportunos que todos um dia passaremos a ser. É triste, mas o destino de todos nos será sermos filtrados pelos nossos descendentes.  O negócio é irmos aprendendo os truques dos Spammers, vamos precisar.