Gambiarras eternizadas

Do ponto de vista de um engenheiro, toda vez que alguém faz uma gambiarra um anjo morre queimado no céu. Mas é claro que há sempre a discussão do que é uma gambiarra na tentativa de salvar o pobre coitado do anjo. Um cara de marketing vai dizer que é time-to-market enquanto alguém que trabalha no departamento financeiro vai dizer que é redução de custos. Coisas boas então, certo? Na verdade, a gambiarra é uma coisa boa para todo mundo, menos para quem vai ter que concertá-la depois.

Por .joao xavi (CC)
Mas tem umas gambiarras que inicialmente parecem boas ideias inofensivas, mas que se eternizam e com o passar do tempo, vão se propagando, dominando nossas vidas e causando problemas de ordem inimagináveis.

Quer ver. Um dia alguém teve a brilhante ideia de economizar dois míseros bytes na informação de datas nos sistemas. A reunião para decidir isso foi mais ou menos assim:

Engenheiro: Temos um problema sério. Vai acabar o espaço em disco e temos que comprar mais alguns para armazenar os dados dos sistemas.

Financeiro: Não temos dinheiro para isso no orçamento. Melhor você achar uma alternativa.

Engenheiro: A alternativa é a gente parar de armazenar dados.

Financeiro: Se isso for economizar, tudo bem.

Engenheiro: Mas ai vamos ficar sem os dados dos nossos clientes.

Marketing: Isso não! Os dados sobre os clientes são a coisa mais valiosa que temos.

Engenheiro: Então precisamos de mais discos.

Estagiário: E se a gente não armazenasse os 2 primeiros dígitos do ano? Isso não nos ajudaria a economizar espaço?

Engenheiro: Sim, claro. Mas no ano 2000 teríamos um caos global de proporções nunca antes vista simplesmente porque hoje não temos dinheiro no orçamento para comprar mais uns míseros discos. Os custos para concertar nossos sistemas serão ordens de grandeza maior do que o custo dos discos.

Financeiro: Essa solução é brilhante! Vamos em frente. Em 99 (querendo dizer em 1999) a gente coloca um valor no orçamento para rever isso.

Marketing: Concordo. Além do que até no ano 2000 esses sistemas vão estar todos obsoletos e a gente vai estar morando na Lua. 


Todo mundo sabe o fim dessa história. Essa reunião de 5 minutos custou vários bilhões alguns anos depois. Sem falar nas inúmeras vidas de anjos que foram perdidas durante o processo de correção. Pelo menos temos mais uns 8.000 de tranquilidade com relação a este assunto.

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Mas tem umas gambiarras que são ainda mais enraizadas no nosso dia a dia e que a gente nem se dá conta mais. Por exemplo, você sabe por que o seu teclado tem as letras distribuídas desta forma? É porque nas máquinas de escrever antigas cada letra tinha um braço mecânico que literalmente se movia e batia em uma fita com a tinta contra o papel para “imprimir” a letra. E se você digitasse duas letras que ficavam uma do lado da outra muito rápido, os dois braços enroscavam. Ai teve um cara brilhante que ao invés de resolver o problema da mecânica da máquina, resolveu fazer uma analise das palavras que existiam e descobriu que apenas rearranjando as letras do teclado ele evitava a maioria dos problemas. Por exemplo, a letra "A" aparece menos vezes ao lado das letras "Q", "S" e "Z" do que da letra “B”, “C” e “D”. Por isso o "A" está onde está hoje. Essa é a distribuição que menos travava as máquinas antigas. E por isso, até quem nunca viu uma máquina de escrever na vida tem que aprender a digitar em um teclado com essa distribuição. 

Agora, a gambiarra mais legal de todas é a hora de 60 minutos. Sabe por que uma hora tem 60 minutos e não 100? Sabe por que o dia tem 24 horas e não 10? Ou então porque são 360 graus em um círculo? Pelo mesmo motivo que ovos se vendem em dúzias. Os babilônicos (eles mesmos, os caras dos jardins) que não sabiam nada sobre frações (elas não tinham sido inventadas ainda), tinham problemas sérios para dividir as coisas. Se o lote fosse de 10, como é que eles iam dividir por 3 ou 4? Não dava e eles simplesmente entravam em guerra, que era a forma de resolver conflitos da época.

Então, toda vez que um deles ia à feira comprar ovos e tivesse que dividir o lote em três, por exemplo, dava uma confusão lascada. Além de não conseguirem dividir ovos sem fazer uma lambança, acontecia uma nova guerra e eles acabavam quebrando todos os ovos. Um desperdício. Então, um babilónico que estava cansado de guerrear, descobriu que o número 12 (e seus múltiplos 24, 36, 48, 60, 180 e 360) era muito melhor por que ele é divisível por 1, 2, 3, 4, 6, e 12 sem dar frações. Beleza não é? Mais de 5.000 anos se passaram e a gente ainda usa a tecnologia de pessoas que jogavam ovos uns nos outros porque que não sabiam como dividir um ovo ao meio. Será que nenhum deles pensou em cozinhar o ovo para dividi-lo? Isso sem falar em Setembro que é o mês nove e Outubro que é o mês 10, no ano bissexto e outras coisas mais.

Então, da próxima vez que você pensar em fazer uma gambiarra, pense que no mês 9 do ano 9.999 vai ter um descendente seu digitando em um teclado QWERTY freneticamente pensando que horas ele vai conseguir ir para casa e confundindo 9:00pm com 19:00hs.