O dia que o Google dominou o mundo

Por missha (CC)
Nivaldo trabalhava tranqüilo em casa quando a campainha tocou. Era uma terça-feira à tarde e tudo estava correndo exatamente como correm em uma terça-feira a tarde. Ele então levantou da sua mesa e foi abrir a porta pensando “o que será que querem comigo em uma terça-feira à tarde?”. Era uma terça-feira à tarde de um futuro razoavelmente distante, mas não muito.

Achou estranho a campainha tocar porque o porteiro do prédio não anunciou ninguém pelo interfone. Deu uma olhadinha pelo Olho Mágico e viu 3 pessoas bem vestidas e apresentáveis com um ar de seriedade. Julgou que seriam pessoas boas que não fazem o mal. Ele julgou bem mal.

Ainda um pouco desconfiado Nivaldo disse sem tirar o olho do Olho Mágico e sem abrir a porta:

- Pois não?

- Ola Sr. Nivaldo. Somos do Google e viemos fazer algumas perguntas para o senhor. O senhor se incomodaria em respondê-las?

Nivaldo achou muito estranho, pessoas que trabalham no Google virem até a casa dele para fazerem algumas perguntas. Mas, em todo caso, resolveu abrir a porta para ver do que se tratava e viu uma cena no mínimo extremamente peculiar.

A pessoa mais a frente era claramente o chefe, vestindo uma calça jeans, tênis e uma camiseta pólo branca com um logo tipo do Google (aquele que as letras são todas coloridas) no lado esquerdo do peito. Usava óculos com um certo grau, tinha um cabelo razoavelmente desarrumado e vinha um ar de mau humor emanando dele. Ele tinha uma mochila com o logo do Google nela. As outras duas pessoas que estavam atrás dele eram bem maiores e mais fortes e vestiam um uniforme completamente branco, com botas e cinto preto e um boné, também branco, com o mesmo logotipo do Google estampado. Claramente, os dois senhores atrás eram uma espécie de segurança e ao olhar com mais calma Nivaldo viu que olhavam para o nada e mal se moviam. Obviamente, não foi uma cena tranqüilizadora.

- Recebemos uma denúncia de que o senhor não está seguindo o nosso Termo de Serviço descrito no site. Será que o senhor se incomodaria se entrássemos para podermos conversar? Nos só iremos fazer algumas perguntas para averiguar o ocorrido.

Silêncio.

Mais silêncio.

Durante o silêncio Nivaldo repassava tudo que tinha feito ultimamente na internet para ver se achava alguma coisa comprometedora, ilegal ou comprometedoramente estranha que poderia incriminá-lo. Não achava nada. Pensava nos sites que tinha acessado, nos e-mails que mandou, nos downloads que fez... nada. Claro que sempre tem uma foto de alguma modelo com um pouco menos de roupa que ele às vezes clicava quando estava longe da mulher, mas nem completamente peladas elas estavam, não podia ser isso. Tinha também aquele vídeo que um amigo tinha mandado por e-mail de umas coisas engraçadas, mas isso não era crime. Será que foi aquele download de músicas? – pensava ele – mas não era possível, todo mundo fazia isso. Como é que pode o pessoal do Google aqui em casa? O que foi que eu fiz? Foco Nivaldo, foco! Um vírus, só pode ser um vírus. É isso! Fui hackeado!

Mas naquele instante o chefe disse:

- Sr. Nivaldo?

- Sim? – disse Nivaldo nervoso.

- Então... será que podemos entrar para lhe fazer algumas perguntas? – disse o chefe sem perder a calma mas claramente com uma expressão de eu odeio esta parte do meu trabalho.

Nivaldo sem saber o que fazer, no meio de um turbilhão de idéias estranhas e confusas para tentar achar uma saída para a situação disse:

- Vocês têm uma ordem judicial? – mas logo pensou “ai ai ai... isso só vai me incriminar ainda mais”.

- Temos um e-mail do Vice-Presidente de Mau Uso do Termo de Serviço do Google. Isso já basta, não?

Nivaldo ficou pensando se isso já bastava mesmo.

- Vice-Presitente do que?

- De Mau Uso do Termo de Serviço.

- Ahhh... sei... – mas não sabia.

- Então Sr. Nivaldo, podemos entrar? – ainda estavam parado na porta.

- Espera ai! O que foi que eu fiz? – disse Nivaldo ainda de pé na porta – eu não fiz nada de errado então não tem porque vocês estarem aqui.

- Senhor, temos ordens expressas para averiguar a denúncia, são só algumas perguntas. Se o senhor preferir podemos fazer aqui mesmo.

- Tá – disse Nivaldo seco – aqui tudo bem.

- Obrigado – disse o senhor do Google – já retirando um tablet (que não era um iPad) da bolsa e mexendo em alguma coisa. Depois passou alguns segundos analisando o que estava lendo e disse – segundo a denúncia dos nossos sistemas de informação, o senhor está usando produtos dos nossos concorrentes ilegalmente. O senhor confirma ou nega esta afirmação?

- O quê? Eu não uso produtos ilegalmente, sou uma pessoa honesta.

- É uma pergunta simples Sr. Nivaldo. O senhor usa ou não usa produtos dos nossos concorrentes?

Nivaldo pesou bem antes de responder. Tinha usado o Bing uma vez, mas isso foi no ano passado. Ele tinha um e-mail do Yahoo antigo que nem usava mais, mas ainda usava bastante o Excel, o que o preocupou.

- Espera ai! – disse Nivaldo agora bem mais nervoso – eu uso os produtos que eu quiser e não tenho que dar satisfação disso para vocês.

- Ahhh – disse o chefe com um ar de superioridade como quem está prestes a dar um cheque-mate em um oponente que não sabe que vai levar um cheque-mate – mas o certamente usa os serviços do Google, correto?

- Sim, e daí.

- O senhor já leu o Termo de Uso dos nossos serviços? – disse ele agora com o ar de quem gosta desta parte do serviço.

Um calafrio na espinha subiu lentamente pelas costas do Nivaldo. Ele engoliu seco.

- Não.

- Então ai está o problema, o senhor deveria ter lido. Lá está claramente descrito que, uma vez que o senhor opte por usar os nossos serviços, fica expressamente proibido o uso de qualquer outro serviço que não sejam os do Google.

Silêncio constrangedor.

- Mas isso é um absurdo! Que bobagem é essa agora?

- Bobagem não, Sr. Nivaldo. Tudo isso está muito bem explicado no nosso Termo de Serviço. O senhor tem certeza que não leu? – e ele fez a pergunta obviamente já sabendo da resposta e deu um sorriso um tanto quanto maquiavélico, daqueles que só se levanta um lado da boca.

- Já disse que não li – disse Nivaldo nervoso – ninguém lê estas porcarias.

- Bom – disse o chefe já tentando andar com o serviço dele – o senhor admite então que usou serviços dos nossos concorrentes.

Nivaldo já esta mais do que irritado com aquilo todo.

- Eu uso sim e vou continuar usando e não tem nada que vocês possam fazer com relação a isso. Pronto falei. Agora com licença que eu tenho mais o que fazer da minha vida.

- Está certo – disse o chefe mas com aquele olhar de superioridade – é uma escolha do senhor. Mas neste caso vou ter que cancelar a sua Google Account – e já começou a mexer no tablet e apertar uns botões até fazer um barulhinho típico de quando as coisas vão para a lixeira.

- NAAAAAAAAAÃO....

- Infelizmente não há o que fazer. Já está feito. Passar bem.

O chefe continuava com aquele sorriso maquiavélico e até chegou a dar uma risadinha. Os outros dois sujeitos continuavam imóveis e sem nenhuma expressão, pareciam robôs.

- Não, por favor não. Não faça isso comigo, por favor – tom de suplicio quase católico e quase de joelhos – meus e-mails estão todos no GMail, minhas fotos no Picasa, meus documentos no Google Docs, eu só uso o Chrome como browser, não faz isso peloamordedeus.

- Bom... – disse o chefe – é o que manda o Termo de Serviço não é? O senhor claramente o violou...

- Mas eu mal uso o serviço dos seus concorrentes, é muito raramente. Só de vez em quando. Deve fazer pra lá de ano que não uso o Bing. Só uso o Google, pode ter certeza.

O chefe deu uma olhadinha para o tablet (que certamente rodava Android), apertou alguma coisa e disse – Parece que para nas buscas o senhor realmente está limpo na ficha. Mas e quanto aos sites de vídeo?

- Eu só acesso o YouTube, pode ter certeza. Só muito raramente que dentro de um site ou outro aparece um vídeo do Vimeo que eu acabo clicando, mas é quase sem querer sabe. Não sei por que estes sites ainda colocam vídeos no Vimeo...

- Sei sei... – disse o chefe com um ar de eu estou fingindo que acredito – como é que está aquela sua conta de e-mail no Yahoo?

- Nossa! Aquela coisa velha? Nem lembro mais a senha, consolido tudo no GMail e só uso ele – disse Nivaldo claramente se justificando.

- Sei... – disse o chefe, mas agora com um ar de estou quase sem acreditar.

- Olha, eu adoro o Google. Sou fã mesmo sabe. Uso o Google o tempo todo sabe e vivo falando para os meus amigos usarem. Não tem porque vocês se preocuparem, podem ficar tranqüilos.

- Não sei não. Ainda tem aquela sua conta no MSN Messenger? O senhor não usa isso com freqüência?

- Mas é que aquele desgraçado liga junto com o Windows e eu nem sei desligar, juro que não sei. Eu uso mas é quase que sem querer, sabe? De vez em quando chega uma mensagem ou outra lá e eu nem gosto muito do que meus amigos falam. Na verdade, nem gosto muito dos meus amigos. Vou passar o usar o Google Talk, tudo bem? Tá bem assim? Não me importo em usar o Google Talk.

- E o Twitter, o senhor não usa.

- Bem, usar eu uso, mas é que cá entre nós, não dá para usar o Google Buzz, né? Não que eu ache ele ruim, não, mas é que não acontece nada lá sabe – o que era claramente mentira, até porque até mesmo o funcionário do Google na frente dele não conseguia suportar usar o Buzz.
- Ok, essa eu vou relevar um pouco – disse o chefe – mas só se você prometer que não vai twittar muito.

- Ah sim, claro. Eu nem uso muito mesmo. Só de vez em quando que dou uma entradinha lá para ver se tem alguma coisa engraçada, sabe? Faz tempo que não twito nada.

- Acho que estamos quase chegando a um acordo – disse o chefe como um açougueiro que está chegando a um acordo os bois – mas ainda faltam alguns detalhes que temos que acertar antes de eu poder liberar a sua Google Account. O senhor tem que prometer que vai desinstalar o MS Office e só vai usar o Google Docs daqui em diante.

- O que? Mas é o Excel? E aquelas fórmulas todas que eu já fiz? A não, ai não vai dar...

- Bom, então um bom dia para o senhor e passar bem – disse já virando para sair.

- NÃO! Volta aqui por favor. Tá bom, tá bom. Eu uso só o Google Docs daqui em diante – disse quase chorando.

- E o senhor vai desinstalar o MS Office? – perguntou isso só para ver o sofrimento no rosto alheio.

- Sim. Tudo bem. Dá para me virar só com o Google Docs. Tá certo. Me libera a Google Account agora por favor, vai.

- Ah sim. Acho que agora já podemos chegar a um acordo. Só falta uma última coisinha... o senhor tem um iPhone não é?

- NAAAAAAAAAAAAAAAÃO!!!! Meu iPhone naaaaaaaaaaaaaaaaaaaão!!!!!

Naquela noite, antes de dormir, Nivaldo chorou bem baixinho ao lado do seu novo telefone Android tentando lembrar a sua senha no HotMail.